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Frei Fabiano Zanatta, OFMCap

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  16.03
A CATÓLICA - I

A CATÓLICA - I.

Hoje em dia, quando ouvimos ou lemos “católica” entendemos imediatamente uma igreja, aquela que se diferencia de todas as outras Igrejas que começaram depois do aparecimento de Martinho Lutero. Tal nome, começou a ser usado neste sentido, especialmente a partir, pois, da reforma protestante. E antes, como eram as coisas? Em principio havia uma única igreja cristã, que era simplesmente a Igreja; embora posteriormente tenha ocorrido a separação, no ano de 1053, da Igreja do Oriente que passou a se denominar Ortodoxa.
Então, para muitos, hoje, católica é o nome específico da igreja que tem sua referência maior no Papa, em Roma. Mas, importa lembrar que a origem do nome é bem diferente de ser apenas o nome de uma instituição. Não existe esta palavra no grego da época. Foi criado um neologismo, não para dar nome a uma instituição religiosa, mas para explicitar alguma coisa de sua realidade mais profunda, mistérica.
Simplificando, em grego existe a palavra “katá” (=segundo, na direção de...) e “holé”
oue significa “totalidade, o todo, o inteiro”... então, “católica” vem da junção de um advérbio e de um substantivo: “kat’holé”, segundo a totalidade, segundo o todo. Por que o neologismo? Sem dúvida, não havia outras igrejas concorrentes e então não havia a necessidade de denominação específica de nossa Igreja. O que aconteceu foi que, na medida em que a Igreja avançava na história, crescia, saia de sua infância, ela se percebia na sua totalidade, como portadora de salvação. Então, na sua auto-contemplação, ainda que dentro das limitações históricas, ela se via não apenas como uma congregação externa de seguidores de Jesus, mas povo de Deus “congregado “no Pai, no Filho e no Espírito Santo” (frase de S. Cipriano, século III).
A consciência global dos batizados da época, e a reflexão teológica do momento levaram a uma especificação desta Igreja de Jesus, brotada da Trindade. Então, foram afirmadas quatro características fundamentais, aceitas como suficientes para explicitarem a Igreja como tal: Una, Santa, Católica e Apostólica. Tais caracterizantes da Igreja de Jesus, por serem constitutivas, foram incluídas no Credo chamado Niceno-constantinopolitano, no concilio de Constantinopola de 381.
O sentido óbvio vem do próprio neologismo: a Igreja de Cristo tem uma dimensão de universalidade, destina a salvação a todos na totalidade da boa-nova colocada por Jesus e transmitida pelos apóstolos
O sentido óbvio, original sempre foi de apresentar uma sua universalidade dentro de uma realidade histórica, contingente e que inicialmente era bem particular. O significado, então se apresenta no enfoque da unidade, plenitude, “completude” no sentido de veicular a salvação e a pregação da verdade do Evangelho.
Hoje, muitas igrejas reclamam desta universlidade. Por exemplo, a Igreja universal do Reino de Deus, a Igreja Internacional da graça, a Igreja Mundial do poder de Deus. Por certo, estas universalidades nunca conseguirão ser universais uma vez que não podem começar do ano zero e incluir as gerações de seguidores de Jesus nos séculos precedentes.
Bem, do visto acima, o nome “católico” implica uma dimensão da Igreja, antes de ser um nome própria de uma Igreja. Pela enésima vez devemos lembrar aos ilustres apologetas adversários da Igreja Católica, que este nome não lhe foi imposto no ano de 381 no concilio de Constantinopola, pelo imperador Teodósio, mas que neste concilio se ensinou o Credo que contém a síntese das principais verdades de fé do discípulo de Jesus. Lá se diz: “Creio na Igreja Uma, Santa, Católica e Apostólica”, simplesmente. De que Igreja estavam falando? Qual Igreja existia no momento?
O panfleto “100 respostas bíblicas ao catolicismo” parece querer explicar toda a realidade histórica posterior apenas com o principio luterano da “Sola Bíblia”.
Neste mesmo panfleto, então se afirma que a Igreja Católica nasceu em 325 no Concilio de Nicéia, enquanto que – segundo tal texto – a Biblia responde “que o início da Igreja cristã foi trezentos anos antes em Jerusalém e não em Roma”... e cita I Cor 16,19> Ingênua citação... Paulo fala aí das “Igrejas da Ásia” e fala da Igreja que se reúne “casa de Áquila e Prisca”, que, seguramente não estavam em Jerusalém. Paulo faz entender que a Igreja de Cristo se faz presente nas diversas Igrejas Locais que ele mesmo fundara, e recorda que, ele perseguia a “Igreja de Deus” (una) que, no momento, estava em Damasco também....
O mesmo panfleto cita aí At 2,37-47, que sem dúvida, se referem a primeira igreja em Jerusalém na seqüência do batismo de Pentecostes, cujo comportamento se torna um ideal idílico para a Igreja de todos os tempos.
O ilustre escritor Edino Melo, do citado texto, com tais referências quer dizer que a Igreja Católica não é a de Cristo. Tudo bem. Então, onde foi parar a Igreja de Jesus? Sabemos que houve uma perseguição em Jerusalém e houve dispersão de cristãos, e mártires... e também sabemos que pelo ano 70 as tropas de Tito/Vespasiano destruíram definitivamente a Jerusalém da época, e não ficou pedra sobre pedra. Teria a Igreja de Jesus sucumbido nas ruínas de Jerusalém? Ou teria se escondido no deserto durante mil e quinhentos anos?....
O que sabemos é que após estas ruínas, aos poucos foi ressurgindo uma comunidade cristã em Jerusalém, florescente, em sintonia com a Igreja de Roma, que tinha liturgia própria da semana santa (viu, já se celebrava semana santa no século IV) conforme lemos no livro de Etéria, uma senhora que fez uma peregrinação lá nos lugares santos e nos descreve particulares cristãos da vida da comunidade local.
Temos ainda no século V, em Jerusalém, a ilustre figura do bispo S. Cirilo de Jerusalém, catequeta, homem de cultura, e testemunho da fé recebida dos apóstolos, que age em consonância coma Igreja de Roma, isto é, seus discursos, escritos, pregação anunciam aquilo que se fazia em Roma e que se faz ainda hoje na Igreja Católica.
Importa lembrar que, apesar da destruição de Jerusalém, da dispersão da comunidade primitiva de At 2,42-47, a comunidade aí ressurgida foi considerada uma comunidade de matriz apostólica, isto é, uma das Igrejas que pela sua historia iluminavam outras, e junto a Igreja de Jerusalém estava a de Roma e a de Alexandria , consideradas igrejas apostólicas.... cuja primazia sempre foi concedida a Igreja de Roma, por que Pedro lá estivera, derramara o seu sangue pelo Cristo lá.
Seria bom que quando alguém se metesse atacar a Igreja Católica, enquanto Igreja e enquanto realidade presente na história, fosse mais correto como pesquisador – e não apenas citador de bravatas coligidas cá e lá- e mais exegeta, isto é, não se conduza por escolhas antecedentes à verdade a ser encontrada.. Sem dúvida, a Igreja tem uma história de pecados, e confessa, como o publicano no fundo do templo, sua culpa. Não cabe à Igreja ficar de dedo esticado contra pecadores em outras instituições religiosas. Contudo, também aqui, se ficarmos olhando os pecados, cabe aos demais a frase: “Quem não tiver pecado, atire a primeira pedra”...
(continua)


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