
Frei Fabiano Zanatta, OFMCap

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10.07
TU ES PETRUS (III)
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A evolução do exercício do ministério petrino.
Quando falamos de Primado Pontifício, com a expressão queremos dizer claramente um “poder maior” na Igreja, poder sobre todos os batizados, poder que está sediado no bispo de Roma, enquanto sucessor d e S. Pedro. È um poder que não lhe é próprio enquanto cidadão, mas é o poder agir em nome de Cristo conforme lemos em Mt 16,19.
O primado do bispo de Roma encontra seu fundamento na prolongação do ministério de Pedro, um ministério universal de unidade, conforme vimos antes nos textos referentes a Pedro no NT.
Muitos dizem que de fato, pelo NT não se pode negar de que Pedro foi incumbido de uma autoridade especial sobre toda a comunidade inicial. Só que foi um privilégio especial, e enquanto personalizado acompanhou seu detentor ao túmulo. O ministério fica reduzido à sua pessoa.
Ora, se situarmos a figura de Pedro vinculada à Igreja de Roma, tal reducionismo não se justifica. A presença de Pedro e Paulo em Roma sempre foi vista como a presença fundante da mesma Igreja, e sua presença aí aprece como uma função eclesial universal. Então, será a seqüência normal da história que vai iluminar o que sempre se ensinou na Igreja, “em toda parte, para todos, e sempre”.
Um testemunho ilustre deste capítulo é o já recordado S. Irineu (final do século II . + ou - 190). Nos seus escritos de combate ao agnosticismo ele dizia que as Igrejas só seriam autênticas no seu discurso se coincidiam com o ensinamento dos apóstolos. E este ensinamento dos apóstolos podiam ser encontrados nas igrejas apostólicas, isto é, nas igrejas fundadas por algum apóstolo; neste sentido o ensino dos gnósticos não coincidia com o ensino destas igrejas. E ele acrescenta que poderia localizar várias destas igrejas, mas que iría se contentar com a principal delas, “fundada por Pedro e Paulo”. E a seguir, ele enumera a lista dos sucessores de Pedro em Roma: Lino, Cleto, Clemente, e segue a lista ate 14 nomes, com o daquele que era bispo em Roma quando o próprio Irineu foi martirizado.
Esta “excelência” da Igreja de Roma, na expressão de Irineu e outros, nós podemos colhê-la através dos relacionamentos das demais Igrejas com Roma. Com relação às demais igrejas locais igreja de Roma vive uma “solicitude especial” ampla para com todas.
Na primeira carta de S. Clemente, papa no final do primeiro século, dirige-se aos cristãos de Corinto para restaurar a unidade, agindo com naturalidade de quem está legislando no próprio território, lembra as normas oriundas dos apóstolos, espera ser atendido, o que de fato consegue.
Pelo ano 170, Dionísio de Corinto, escreve lembrando a função da igreja de Roma: “Desde o início haveis tido o costume de ajudar a todos os irmãos de diversas maneiras e tendes prestado ajuda a muitas comunidades em todas as cidades”.
Outro fato, embora pareça pequeno, ilumina o caminhar da igreja de Roma. Foi a questão da data da páscoa. Diversas datas concernentes a tal celebração ocorriam criando verdadeiros conflitos. O bispo de Roma assumiu a questão e determinou a tradição universal.
Nestes momentos iniciais, nenhuma Igreja tinha poder de buscar em si mesma a garantia de sua autenticidade. Tinha de garantir sua autenticidade fazendo referência à Igreja de Roma.
S. Inácio de Antioquia, caminhando para o martírio, em Roma, escreve sobre esta igreja: “igreja que preside na capital do território dos romanos, digna de Deus... digna de todo louvor...a que preside na caridade”.
Nos três primeiros séculos, tempo de perseguição aberta, entre todas as igrejas havia o critério fundamental de pertença à Igreja de Cristo aquela que estivesse em comunhão com a Igreja de Roma. Quem estivesse em comunhão com a Igreja de Roma, estava inserido na fidelidade apostólica.
A Igreja de Roma, sem deixar de ser uma verdadeira igreja local, uma diocese particular, como dizemos hoje, revelava-se assim também com uma função universal, e como tal, fazia-se presente em questões de caráter mais amplo; assim, nas rupturas de unidade regionais (arianismo, nestorianismo, etc.) Assim, cada vez mais se explicitava na consciência das demais igrejas locais que ser Igreja implicava uma referência única com a Igreja de Roma.
Já no final do século IV, (pelo ano 390) S. Ambrósio, bispo de Milão usava a expressão: “Primado de confissão e não de honra, primado da fé e não de distinção” (primatum confessionis non honoris, primatum fidei não ordinis).
Aos poucos, o bispo de Roma se reserve a designação de “sede apostólica e vigário de Cristo”. A “petrinidade” da sede permite ao bispo de Roma reivindicar para si uma autoridade única.
A idéia de sucessão de Pedro e o utilizar Mt 16 (já utilizado pelo papa Estevão no século III) torna-se diretriz no pontificado de Leão I, Magno (440-461):> “O bem-aventurado Pedro não deixa de presidir em sua sede [de Roma]”.
Nestes posicionamentos iniciais vai se configurando a função de Roma como cabeça de todas as igrejas.
Nos primeiros concílios ecumênicos, o reconhecimento de tal primazia era visível. No Concilio de Calcedônia, temos a ênfase maior desta função, quando os padres conciliares, após a leitura da carta de Leão I, aclamaram dizendo: “è a fé da Igreja, é a fé dos apóstolos. Pedro falou pela boca de Leão”. A “recepção” das decisões conciliares por Roma, sempre foi considerada como elemento chave do reconhecimento da ortodoxia e validade dos seus conteúdos doutrinais.
Contudo, as igrejas do Oriente embora admitissem o ministério petrino, aos poucos foram se distanciando do modo como a Igreja do Ocidente (Romana) lia tal função. Caminhou-se para o desencontro que resultou em separação. O Oriente sempre se debateu entre o sentir a necessidade de uma instância última de apelo que fosse garantia última da fidelidade à tradição apostólica, bem como do desejo de autonomia em relação ao Ocidente.
T
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